Vlogs de demissão, vídeos que registram a rotina no dia do desligamento, têm atraído grande audiência nas redes sociais e impulsionado criadores a novos caminhos.
Em alguns casos, o alcance trouxe convites e oportunidades, em outros, gerou alerta entre especialistas de RH e advogados por riscos à reputação e à relação com empregadores.
O fenômeno e os cuidados necessários estão sendo analisados por recrutadores, pesquisadores e juristas, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que esses vlogs viralizam
Para a pesquisadora Issaaf Karhawi, o crescimento dos vlogs de demissão vem do encontro entre vida privada e esfera pública, o que ela resume como o “borrão” entre esses campos.
Karhawi diz que os vídeos funcionam como uma contra-narrativa ao formato de sucesso habitual nas redes, e que conteúdos com carga emocional tendem a ganhar mais alcance, porque o algoritmo amplia o que mobiliza atenção.
Segundo ela, “A ideia de que basta viralizar para viver de conteúdo não corresponde à realidade. Construir uma carreira digital exige consistência e tempo”.
Riscos para a carreira e exemplos
Nem toda exposição é neutra para a trajetória profissional, afirmam especialistas em recursos humanos. A líder de RH Raquel Nunes destaca, “A demissão em si não é o problema, faz parte da trajetória de qualquer pessoa. O ponto-chave é como ela é exposta”.
Casos reais mostram efeitos variados, por exemplo, o vídeo de Victoria Macedo alcançou “mais de 1,5 milhão de visualizações” e impulsionou convites, e o registro da mineira Thaís Borges já soma “mais de meio milhão de visualizações”.
Publicações que citam conflitos, nomes, locais ou detalhes internos podem acender alarmes em recrutadores, enquanto relatos estruturados, que enfatizam aprendizados e maturidade, tendem a fortalecer a marca pessoal.
Como postar com segurança
Profissionais que optam por compartilhar devem avaliar o tom e o conteúdo, evitar difamar ou expor colegas e não divulgar informações confidenciais da empresa.
Raquel Nunes recomenda contar a história com foco em aprendizados e em resiliência, e evitar publicações no calor do momento, porque elas podem transmitir impulsividade.
Práticas simples ajudam, como não mostrar ambientes internos, não citar nomes, revisar o texto antes de publicar e pensar em como o conteúdo será interpretado por recrutadores.
O que diz a lei e os riscos jurídicos
A advogada trabalhista Isabel Cristina lembra que “a liberdade de expressão do trabalhador não é absoluta”, especialmente quando a publicação envolve a imagem do empregador.
Em casos em que há cláusulas contratuais sobre gravações e uso de marca, a empresa pode buscar reparação por danos à reputação, e publicações ofensivas durante o aviso prévio podem até levar a pedidos de justa causa, segundo especialistas.
O advogado Cid de Camargo Júnior alerta que “isso pode acontecer quando há publicação de conteúdo ofensivo enquanto o contrato ainda está em vigor”, e que cada situação depende de análise da Justiça do Trabalho.
Em resumo, os vlogs de demissão podem aproximar audiências e abrir portas, mas também exigem cuidado com a imagem, com o conteúdo e com os riscos legais, para que a exposição não comprometa a empregabilidade futura.



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