PL da Misoginia provoca reação organizada de grupos misóginos nas redes, triplicando o volume de mensagens, concentrando 63% das postagens em dois dias e gerando ameaças
Aprovado por unanimidade no Senado, o projeto que equipara a misoginia ao crime de racismo desencadeou uma onda de mensagens hostis e ameaças nas redes, e a proposta segue agora para a Câmara dos Deputados.
Durante a sessão, Os 67 senadores presentes votaram a favor, sem nenhum voto contrário, e autoras e relatora relataram ameaças após a votação.
As primeiras reações nas redes concentraram grande parte do debate nos dois dias seguintes à aprovação, conforme informações da Palver, do estudo DesinfoPop/FGV e do registro da votação no Senado.
O que ocorreu no Senado e as ameaças a autoras
No dia 24, a relatora Soraya Thronicke lembrou que, segundo os dados citados na tramitação, “só em 2025 o Brasil registrou quase 7.000 vítimas de tentativas de feminicídio”.
A autora do projeto, Ana Paula Lobato, denunciou ter sofrido ameaças de morte e estupro por defender a proposta, e a própria relatora informou também ter sido vítima de ameaças após a aprovação do PL da Misoginia.
A aprovação unânime no Senado, reunindo esquerda, direita e centro, foi destacada como politicamente incomum, e a proposta agora segue para análise na Câmara.
Reação organizada nas redes, dados da Palver e narrativas
Segundo a Palver, que monitora mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o volume de mensagens sobre o projeto de lei triplicou no dia seguinte à aprovação.
Os dois dias posteriores à aprovação reuniram, juntos, quase 63% de todas as mensagens monitoradas sobre o tema no período, e a votação foi tema de intenso debate, “e a reação, por parte da direita, deu-se de forma organizada”.
Entre as mensagens com posicionamento identificável, a divisão foi quase simétrica, com cerca de 48% contra o projeto e 52% a favor, porém os enquadramentos foram distintos, com estratégias coordenadas.
Argumentos e estratégias das campanhas contra e a favor
Na narrativa crítica, cerca de 65% das mensagens contrárias ancoraram-se no argumento da censura, centralizando a suposta ameaça à liberdade de expressão.
Essa linha ganhou projeção quando o deputado Nikolas Ferreira classificou a proposta como “aberração” e prometeu derrubá-la na Câmara, e chegou a circular uma versão adulterada do texto, que foi desmentida e deletada após repercussão.
Por outro lado, a narrativa de apoio organizou-se em torno da violência real contra mulheres, com aproximadamente 10% de todas as mensagens monitoradas fazendo referência simultânea ao feminicídio e à violência contra a mulher.
Soraya Thronicke sintetizou parte da reação negativa, apontando que o país “odeia mais a palavra “feminismo” do que “feminicídio”.
Machosfera, estudo da DesinfoPop/FGV e os próximos passos
O estudo do DesinfoPop/FGV mapeou 85 comunidades masculinistas brasileiras no Telegram e analisou mais de 7 milhões de conteúdos publicados entre 2015 e 2025, e concluiu que políticas de gênero são sistematicamente reapresentadas como “ameaças aos homens” ou evidências de “captura feminista do Estado”.
Segundo a pesquisa, leis de enfrentamento à violência contra mulheres, incluindo a Lei Maria da Penha, são alvo de ataques recorrentes nessas comunidades, o que explica parte da mobilização contra o PL da Misoginia nas redes sociais.
Na Câmara, a proposta terá de enfrentar tanto as contestações jurídicas quanto a polarização política, em um ano eleitoral onde narrativas ideológicas podem pressionar parlamentares mais que argumentos técnicos sobre combate à violência.
Especialistas e parlamentares que apoiam o projeto defendem que a discussão precisa ser centrada na proteção das mulheres e em dados de violência, enquanto críticos invocam riscos à liberdade de expressão, e o principal desafio será evitar que o debate se transforme apenas em mais um campo de disputa ideológica.



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